Eu, menina

Eu, menina

dançava, cantava, sonhava

queria os cabelos da moça na tela

queria sua cintura e seus saltos

mal sabia eu

a dor que seus pés suportavam.

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Névoa

Esta convicção de que há

Algo de errado comigo

Não conto

A ninguém

Escondo

Engulo

Até a garganta doer

Escondo-a de mim

Embora saiba

Que todos me podem ver

Inapta

Inadequada

Inerte

Inanimada

Há qualquer coisa

Que me ata os braços

Que me pesa os passos

Que me povoa a mente

Uma enchente

De neblina

Já não sei pensar

Sou apenas um pântano

De emoções que acendem

Como fogos-fátuos

Apenas sorrio

Para que me esqueça

E eles também

De que não sei pertencer

A nenhum lugar

A não ser

À névoa na minha cabeça.

Deriva

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Quando eu era mais menina

Achava que a vida

Por si só, era sabida

Eu a ia levando

E um dia ela ia me levar

Ao meu devido lugar

Como a maré

Hora em calma, hora em fúria

Devolve às terras o que nela flutua

Meu momento iria chegar

Continua porém a minha deriva

Embalam-me as ondas desta vida

Foram-se, qual tempo, os remos

E eu, sem porto onde repousar

Procuro apenas não naufragar.

Feia

Sentir-se Feia

É ver-se

Estranha,

Sentir vergonha.

 

Sentir-se Feia

É uma luz apagada.

Uma blusa larga e escura.

É vestir-se na praia.

 

É os conformes da idade.

Ou não reconhecer-se,

Presa a uma juventude

Que quer ser eternidade.

 

Saber-se Feia, porém

É libertar-se

De ter que ser

O que não se é.

 

É não lamentar-se,

Por dois dedos de barriga.

É pertencer às rugas que lhe pertencem.

É achar beleza em ser diferente.

 

Saber-se Feia

É saber-se também Bela.

Incomparável,

E inconvencionalmente.

 

Sentir-se ou saber-se?

Ténue é a linha entre emoção e razão.

Somos nada,  além de um emaranhado.

Buscando paz entre a confusão.