Amor e entorpecente 2

Desejo

surge em sensação

do contorno superior da clavícula

Amor

brota do centro do peito

em todas direções

no diâmetro dos cantos da boca

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Névoa

Esta convicção de que há

Algo de errado comigo

Não conto

A ninguém

Escondo

Engulo

Até a garganta doer

Escondo-a de mim

Embora saiba

Que todos me podem ver

Inapta

Inadequada

Inerte

Inanimada

Há qualquer coisa

Que me ata os braços

Que me pesa os passos

Que me povoa a mente

Uma enchente

De neblina

Já não sei pensar

Sou apenas um pântano

De emoções que acendem

Como fogos-fátuos

Apenas sorrio

Para que me esqueça

E eles também

De que não sei pertencer

A nenhum lugar

A não ser

À névoa na minha cabeça.

Deriva

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Quando eu era mais menina

Achava que a vida

Por si só, era sabida

Eu a ia levando

E um dia ela ia me levar

Ao meu devido lugar

Como a maré

Hora em calma, hora em fúria

Devolve às terras o que nela flutua

Meu momento iria chegar

Continua porém a minha deriva

Embalam-me as ondas desta vida

Foram-se, qual tempo, os remos

E eu, sem porto onde repousar

Procuro apenas não naufragar.

Feia

Sentir-se Feia

É ver-se

Estranha,

Sentir vergonha.

 

Sentir-se Feia

É uma luz apagada.

Uma blusa larga e escura.

É vestir-se na praia.

 

É os conformes da idade.

Ou não reconhecer-se,

Presa a uma juventude

Que quer ser eternidade.

 

Saber-se Feia, porém

É libertar-se

De ter que ser

O que não se é.

 

É não lamentar-se,

Por dois dedos de barriga.

É pertencer às rugas que lhe pertencem.

É achar beleza em ser diferente.

 

Saber-se Feia

É saber-se também Bela.

Incomparável,

E inconvencionalmente.

 

Sentir-se ou saber-se?

Ténue é a linha entre emoção e razão.

Somos nada,  além de um emaranhado.

Buscando paz entre a confusão.

 

A um tímido

Esse é pra você.

Que anda na rua de olho na calçada.

Que assiste a conversas

Com um sorriso blasé.

Que morre de medo

De incomodar alguém.

Que dá uma risadinha frouxa

De olhar baixo

A quem foi grosso com você.

Como queria ter dito

As palavras audaciosas,

Das horas depois…

Mas só de pensar nisso,

Tem o rosto quente.

Ninguém entende

Que lá por não dizer nada

Não significa

Que nada tenha a dizer!

E fica pensando

Se te acham um porre.

Sem graça, insosso.

Você nada tem que provar a ninguém.

Merecedor do seu melhor

É só quem resolveu

Querer te conhecer bem.

Ah, mas como eu queria

Dançar aquela música,

Responder pergunta em aula,

Piscar pra alguém.

E nossa,

Como já me doeram as bochechas

De tanto querer ser simpática!

E pra desinibir, a cerveja que já tomei…

Talvez você também.

Quero lhe dizer

Que com o tempo melhora.

Se não se solta,

Tampouco se importa.

Tem quem te adora.

Mantenha-se o eterno mistério.

Esse é o seu jeito.

Eu estou contigo

Na busca de se querer.

Já dizia Frida,

“É verdade.

Eu estou aqui,

E sou tão estranha

Quanto você.”